segunda-feira, 23 de agosto de 2010

1985

A Ditadura no Brasil agonizava. Oficialmente o presidente Figueiredo havia decretado a “anistia ampla, geral e irrestrita”. Os exilados começavam a voltar depois de décadas longe da sua terra natal. Apesar do gosto amargo de ver a emenda Dante de Oliveira – que previa eleições diretas para presidente – naufragar no Congresso Nacional, um presidente civil seria eleito naquele janeiro. Paulo Maluf e Tancredo Neves disputavam a primazia de ser o primeiro presidente pós período negro da Ditadura.


    Renato Oliveira, 20 anos, radialista, ator, filiado ao Partido Comunista sabia que a Ditadura dava seus últimos suspiros, mas ainda não estava morta. E quando um regime de exceção agoniza, os resquícios costumam ser os mais agressivos possíveis. Com isto, ele não contava.


    Durante todo o ano anterior, sob o “escudo protetor” da democracia que estava se implantando em todo o país. Renato percorreu boa parte do país com um espetáculo teatral de sua autoria, onde interpretava o protagonista, e que o tema era exatamente os “anos de chumbo” que o Brasil – teoricamente – tinha vivido até naquele ano. E, mesmo com a censura em pleno vigor e com amplos poderes, não foi incomodado pelos homens que zelavam da ordem pública no país.


    Ainda assim tomou certas precauções. E no dia 4 de janeiro daquele ano casava-se com Lúcia, irmã de um cacique político do PDS – sucessor da ARENA, partido de sustentação política do regime militar. A intenção era que ela e o agora seu cunhado fossem um escudo protetor á sua integridade física e política. Esquecera-se, no entanto, da máxima de Maquiavel – o único derrotado que não representa nenhum perigo de revanche é o derrotado que está morto -.  E isto lhe custou caro.


  15 de janeiro. No dia em que o Congresso Nacional escolhia Tancredo Neves como primeiro presidente civil desde o golpe de estado de 1964, Renato – mal chegado de sua lua de mel – era detido pela Polícia Federal para “prestar declarações” a respeito do conteúdo da peça de sua autoria. Neste período os alvarás de censura eram renovados periodicamente. Pouco antes de seu casamento pedira a renovação deste documento. E nem deu a importância que devia ter dado a isto. Este foi seu erro...


    Num porão escuro do próprio porão do Departamento de Censura e Diversões Públicas da Polícia Federal, ele passou por horas de verdadeiro pesadelo. Viu que teria o mesmo destino que muitos personagens que conhecera – alguns pessoalmente – desde que tivera o primeiro contato com os comunistas. Quatro “agentes” exerceram sobre ele verdadeiro terrorismo psicológico, acusando-o seguidamente de subversivo por ter escrito uma peça que “incitava” o povo a ler e questionar mais os mandatários deste país. Riu para si mesmo de sua desgraça. Naquele momento histórico em que os generais voltavam á caserna, restaria justamente a ele ter a “honra” de ser o último desaparecido pelo regime agora agonizante?


    Depois de urinar várias vezes na própria calça foi “aliviado”. Ficou sem elas, seminu. Sentiu que seu momento havia chegado. Neste momento nomes dissonantes e visões começaram a povoar lhe a mente. Era o tal do “filme” que passa na cabeça de todo moribundo antes de deixar este mundo? Não queria ter a resposta para esta pergunta ainda porque quase a totalidade dos nomes era desconhecida dele. Não tinha a menor idéia de quem seriam aqueles nomes. Num último delírio viu uma imagem dissonante verde num canto da sala. Em seguida, teve a nítida sensação de ver uma borboleta roxa posando sobre a luz tênue que “iluminava” todo aquele porão. Mais nomes foram sussurrados ao seu ouvido. Seria o verdugo? Melhor não perguntar. Subitamente a última visão: as letras gregas Alfa e Ômega. Início e fim. Sim esta era sua hora.


    Esperando apenas pelo momento de dar seu último suspiro, viu quando um homem baixo, óculos enfiados no nariz fino e grande, levemente corcunda entrou na sala e, gritando, deu ordem aos homens que liberassem Renato imediatamente. Alegou que ele tinha amigos graúdos em Brasília e que, inexplicavelmente, um deles havia descoberto seu “desaparecimento” e, em plena sessão que elegia Tancredo exigiu a soltura dele.


    Mais tarde ficou sabendo que fora seu amigo Robson Garcia, que num gesto mais que tresloucado havia ligado para a Capital Federal e narrado ao deputado o que havia acontecido. Logo, saiu. A situação, no entanto, era ridícula. Estava com a calça toda molhada das variadas vezes que urinara com medo da morte iminente que o havia rondado. Como voltaria para casa naqueles trajes? Teve uma idéia “brilhante”. Encostou no primeiro botequim de quinta categoria que encontrou pela frente e tomou uma garrafa de cachaça sozinho.


    Era acostumado a beber cerveja e, ocasionalmente, uísque. Cachaça só como caipirinha e ainda assim em churrascos. Nunca em bares. Mas naquele dia especialmente precisava daquele trago.


    Lúcia, sua esposa, estranhou o fato dele chegar fedendo a pinga. Mas resolveu calar-se. Porém, uma vontade de sair de Londrina e ir para São Paulo apoderou-se firmemente de Renato. Nada o faria mudar de idéia. Robson ainda tentou mostrar para o amigo – o irmão que a vida havia lhe dado, como costumavam um dizer do outro – que a cidade de São Paulo era muito violenta com quem tentava se aventurar nela. Costumava não perdoar aventureiros, impondo-lhes miséria e condições subumanas de vida.


    O amigo comunista confortou o que lhe havia salvado a vida dizendo que iria com alguma coisa arranjada. Mas precisava ir embora daquela cidade. Todos estranharam uma vez que ele poderia ter feito tal coisa antes de se casar. Agora teria que levar a esposa consigo e isto poderia ser mais uma coisa a impedir que ele realizasse seu sonho. Pela primeira vez, Renato, admitiu a possibilidade de dar aulas particulares de Redação, uma vez que havia feito com que seu primo entrasse num concorrido vestibular só com as aulas ministradas por ele.


    Não demorou muito para que o irmão de Lúcia intercedesse por ele. E no dia 2 de março daquele ano embarcava rumo a São Paulo, trabalhar na produção de um programa de calouros na TV Record, em São Paulo. Encontrou um parente de sua recém esposa que foi seu avalista no pequeno apartamento que alugaram próximo á Praça 14 Bis, nos fundos do Teatro Maria Della Costa.


    Morando no centro de São Paulo e trabalhando próximo a Congonhas estava relativamente perto de um lugar ao outro. Sua esposa logo trabalhava em uma agência de publicidade. Não demorou muito para que começasse a freqüentar a Escola de Samba Vai – Vai. Afinal, a quadra da escola era muito próxima de sua casa. De uma hora pra outra a vida de Renato estava se encaixando. Ele parecia, agora, mais leve. Até o sorriso tinha sido espontâneo.

   
    Em pouco tempo já estava abrigando um amigo de Londrina. Carlinhos tinha ido para São Paulo para lá assumir sua homossexualidade. Não tinha onde ficar. Renato não se fez de rogado e arrumou um quarto para o amigo. Este foi um passo acertado, pois logo surgiu a proposta para assumir a lanchonete de um lava rápido. Aceitou e entregou a responsabilidade para Carlinhos. Assim ele começou a ganhar dinheiro...


    No dia 21 de abril, ao voltar do ensaio da escola de samba, depois de ter tomados uma a mais, chegou em casa e ao ligar a televisão viu o jornalista Antônio Brito anunciar a toda nação que o presidente Tancredo Neves havia falecido naquela hora, em São Paulo. Começou imediatamente a temer pelo seu destino e pelo destino do país. Viu que mesmo tentando fugir tinha ido parar na “boca do leão”. Chorou por ele e por todos os que vieram em sua mente embriagada no final de noite daquele domingo.

1986

O ano anterior começou sem sustos para Renato. Cada vez mais envolvido com seu trabalho e com seu casamento – que acreditara até então ser para sempre – ele tinha tirado de sua mente as possíveis perseguições que poderia sofrer pelo seu passado político. Principalmente estando praticamente exposto na grande cidade.


    No carnaval daquele ano, a convite do amigo Célio Lupi voltou para Londrina para ajudar a escola de samba que tinha ajudado a fundar e voltar a ganhar um campeonato. Ainda que sua vontade fosse desfilar pela Vai – Vai em São Paulo, optou pela volta para a terra natal a fim de ajudar os amigos. E assim foi feito,


    Num dos últimos ensaios conheceu Fernanda, sobrinha de Célio. A adolescente mexeu com o emocional e a libido dele. Nunca tinha estado com alguém de 14 anos antes. E isto parecia um dose desafio a ele. Porém, havia um enorme empecilho: ele era casado e tinha feito um pacto para si mesmo de ser fiel a Lúcia. Ainda que seus pensamentos o traíssem.


    Por via das dúvidas trocaram telefones e ficaram de se falar com mais freqüência, uma vez que ela também morava em São Paulo. Ainda naquele carnaval – que sua escola ganhou – viu a menina ser internada com mistura de coma alcoólica e excesso de maconha. Voltou para a megalópole, cheio de esperanças no peito, fantasiando os encontros que poderiam se suceder dali.



    Não demorou muito para que seu cunhado desse notícias. Iria se tornar comendador. Renato riu. Sabia que estas honrarias eram compradas e que não tinham a menor importância. No entanto, o cunhado pediu para que ele fizesse reservas num hotel no padrão do Macksoud Plaza – estava lotado naqueles dias – para ele. E assim foi que ele fez as reservas no Brasilton Hotel.


    Na semana seguinte estava o cunhado não com a cunhada, mas sim com a amante. Nada que fosse estranho. A amante era muito mais companheira que a esposa. No dia anterior ao recebimento da comenda, os dois resolveram sair. Jaime – o cunhado – era pródigo. Gostava de presentear quem gostava com o que queriam. Por mais estranho que fossem os gostos.


    Naquela tarde ele não se fez de rogado. Quis conhecer uma casa de massagem que houvessem belas massagistas. E assim foram parar num antro – porém de belíssimas mulheres – na Brigadeiro Luiz Antônio, próximo de onde era o Teatro Bandeirantes. Não demorou muito para que a proposta fosse feita. Renato poderia escolher a mulher que quisesse que ele pagaria. Este desconfiou. Poderia ser um teste. Dois ou três doses depois viu que o convite era sério. E escolheu a jovem que mais parecia com Fernanda enquanto o cunhado pegava uma japonesa. Fizeram sauna e sexo várias vezes. Estava quebrado o pacto que fizera com ele mesmo. Pelas mãos de alguém do próprio sangue de Lúcia. O alívio foi dobrado.


    No dia da condecoração ele ria muito da situação. E quanto mais bebia, mais patético achava tudo aquilo. Estava num evento num dos hotéis mais importantes do Brasil, com boa parte do PIB nacional. Logo ele, um comunista – ou seria ex, a esta altura? – vivendo algo que era frontalmente contrário a tudo que tinha lido, vivido e estudado. Porém um fato chamou-lhe a atenção. Comentava-se á boca pequena que na semana seguinte o Presidente Sarney iria lançar um programa que salvaria de vez a economia nacional: o Plano Cruzado. Mais que isto, ouviu algo que o fez arrepiar todinho. Daquele plano econômico, Sarney se tornaria o maior líder político de toda aquela Nova República que ainda estava em estágio embrionário no país.


    Não demorou muito e o que Renato tinha ouvido começou a se concretizar. De uma hora pra outra a nação se uniu em torno do plano econômico lançado pelo Governo para acabar com a inflação e o que mais se via nas ruas era a figura pitoresca do “fiscal do Sarney”. Por outro lado, aquela experiência extraconjugal havia lhe aberto todas as novas possibilidades possíveis. E, desta forma aproximou-se de vez e perigosamente de Fernanda.


    Aos poucos as conversas foram esquentando. Outra vezes esfriava abruptamente. Certa feita, a adolescente disse a ele que precisava tirar umas dúvidas de Língua Portuguesa. Inocentemente ele acreditou naquela artimanha. Ela, caprichosamente, foi desarrumada para o apartamento dele insinuando que só queria provar do conhecimento dele. Porém naquela tarde de 3 de maio um provou do néctar do amor do outro e os verbos que se conjugaram foram: amar, entregar, beijar, desnudar, gozar...


    Quando a tarde começou a cair os dois foram a uma choperia na Praça 14 Bis. Seria perigoso demais ficar naquele apartamento sendo que Lúcia podia chegar a qualquer momento. E enquanto tomavam um chope e trocavam carícias embaixo da mesa daquele bar, a esposa entrou triunfante. Estranhamente ou distraidamente ela fez – ou fingiu – que não percebera nada de anormal. E juntou-se aos dois.


    Triunfante, Renato percebeu que seu caminho com Fernanda estava mais que aberto. Ela, porém, por pura precaução resolveu mudar os lugares dos encontros. Como uns parentes seus iam passar dois meses nos Estados Unidos e sua mãe ia ficar com a chave do confortável apartamento que eles tinham em Moema, ali ficou o endereço dos amantes. Muitas tardes e até algumas noites regadas a cerveja, vinho e muito, mas muito sexo foram vividas ali. A única coisa que o incomodava um pouco era quando nestes intervalos ela parava para fumar uma maconha. Não suportava o cheiro daquilo – até porque era ex-fumante – mas por aquela relação era capaz de tudo. Estava apaixonado pela jovem, mesmo não tendo sido o primeiro homem – sexualmente falando – da vida dela.


    A relação entre os dois foi ficando cada vez mais intensa, na mesma proporção que o casamento dele ia esvaindo pelos dedos. Porém, três meses depois de iniciado, ás vésperas dos seus 15 anos – onde ele estava mais que convidado, porque também iria dançar uma valsa com ela – ela resolveu por fim a tudo. Era muito nova para encarar uma relação tão delicada. A princípio ele abstraíra bem a separação. No entanto estava viciado nela. E não se dera conta disto.


    A partir daí começou a beber descontroladamente e a ver Fernanda em todas as mulheres com tinha relações vãs. Havia decidido levar seu casamento com Lúcia apenas como fachada e jurou a si mesmo nunca mais se apaixonar por ninguém. O que Renato ainda não tinha aprendido com a vida é que, quando se trata de amor as juras são nulas, totalmente nulas.


    Estava tão fixado em Fernanda que aos poucos foi se tornando relapso no serviço. Certa ocasião, uma fã de um grupo musical famoso na época propôs a ele “qualquer coisa” para que ele a fizesseela estar com eles. Sem o menor pudor, levou-a a uma Kombi abandonada nas proximidades da Avenida Miruna e ali mesmo – dentro daquele carro velho, enferrujado – fez amor com ela. Porém era na adolescente que estavam seus pensamentos. Lembrou de uma vez que a levou num dos cinemas da Rua Aurora – que exibiam filmes explícitos intercalados de Streap tease – e entre uma sessão e outra fizeram sexo ali mesmo.


    No entanto, nos seus poucos momentos de sobriedade percebia que muito provavelmente seria demitido no final do ano. E uma vontade louca de voltar para Londrina começou a bater nele. Ele acreditava que simplesmente mudar de endereço sem mudar de comportamento resolveria todos os seus problemas. Pior que tudo isso. Acreditava que estava suficientemente vacinado no que se referia a amor. E pensava que poderia viver de fachada por toda a vida.


    Não demorou muito para que o irmão – agora comendador – de Lúcia a procurasse com uma proposta de emprego para ela e Renato. Ambos assumiriam a direção de uma emissora de rádio em Londrina. Ele a direção artística, ela a comercial. Além disto, dariam um apartamento mobiliado a eles. E um salário compatível ao cargo que os dois ocupariam. Ao ouvir a novidade, um alívio tomou conta de sua alma. Disse que da parte dele estava mais que aceito. Precisava refazer sua vida e sair de São Paulo antes que ficasse desempregado e fosse devorado por aquela cidade.


    A esposa estranhou a alegria do marido quando comentou com ele a proposta. Achou que ele fosse colocar empecilhos no fato de os dois voltarem para a terra natal. Pensou consigo mesma que havia feito mau juízo dele ao insinuar que ele tinha uma amante. Quem tem amante não aceita tão depressa uma proposta. E em São Paulo os dois só tinham o que crescer. Ainda assim, resolveu, mais uma vez acompanhá-lo.


    E foi assim que no dia 29 de outubro de 1986, ás vésperas de uma nova eleição, que os dois voltaram para Londrina com a finalidade de reformular não apenas a emissora, mas sim o rádio londrinense como um todo. Como são belas, as ilusões da juventude...

1987

O ano de 1987 despontou com a cara do PMDB. Graças ao Plano Cruzado, que teve em Dílson Funaro – então Ministro da Fazenda do Governo Sarney – seu principal ideólogo, o partido do então presidente fez maioria esmagadora em todos os níveis em que a eleição de 15 de novembro do ano anterior fosse um verdadeiro palanque para o partido do então presidente. Mesmo ainda tendo a impoluta figura de Ulisses Guimarães e outros próceres nos seus quadros, esta foi a “concordata” do partido que mais marcou a resistência á ditadura militar. Orquestrada por um ex-senador que teve origem na ARENA – partido de sustentação militar a esquerda começava agonizar sem se dar conta disto.


    Alheio – como boa parte dos brasileiros á época – Renato vivia sua vida como verdadeiro capitalista. Não era mais nem sombra do comunista de outrora. Seus ideais políticos cediam, pouco a pouco, lugar para o capitalismo mais selvagem que pudesse existir. Confortavelmente instalado num apartamento próximo á emissora de rádio na qual agora era diretor ao lado de Lúcia, gastava boa parte do seu salário em bares e em casas de massagem. Até “correntista” chegou a ser, nesta época, em uma. A fidelidade que havia jurado a si mesmo manter com a esposa já tinha vazado pelo ralo há muito tempo atrás.


    De Fernanda não teve mais notícias. E isto só agravou seu estado de humor e de auto-estima. Mesmo sem se dar conta, aquela adolescente ia marcar uma reviravolta em sua vida. Daquele dia em diante – além do álcool – seria definitivamente movido á paixão ou ao amor. Se não sentisse nenhum, nem outro, ficaria tão frágil quanto fica uma barata diante da pata de um elefante. Contudo, diante de uma situação desta, seria pequeno – fisicamente – como um rato, mas enorme como o este roedor fica diante de um elefante.


    E foi exatamente desta maneira que encarou a vida e aquele ano. Seu trabalho era cada vez mais reconhecido e ele cada vez mais dado ás aventuras amorosas. Num momento ou outro ainda tinha lampejos do grande profissional que era. Mas o álcool e sua obsessão por sexo estavam aflorando cada vez com mais freqüência nele.


    Numa ocasião Lúcia teve de ir a Curitiba para a posse do novo delegado do DENTEL. O novo diretor do então órgão regulador do meio radiofônico era amigo dela desde os tempos em que ela tinha iniciado no mercado publicitário. Além de ser pai de um grande amigo de Renato. Ela insistiu para que ele a acompanhasse mas, mais uma vez, ele alegou que não poderia ir porque tinha inúmeras coisas para resolver na emissora.


    Ela – como de costume – acreditou e pediu para Júlia, sua secretária que cuidasse dele. O que a esposa não contava era que seu marido já estava flertando com ela há muito tempo. Até versos infames e picantes ele já havia escrito para a moça. E esta respondia com sorrisos largos e uma falsa timidez que era capaz de corar o político mais demagogo que existisse.


    Aliás este era mais um atrativo para Renato. A secretária da emissora era sobrinha de um político de direita, do mesmo grupo de seu cunhado. Esta era uma forma que ele tinha de dar o troco em todas as pessoas que o haviam usado dele. Fazê-las de brinquedinho para seu prazer. E, desta forma, sua esposa mal deu as costas para que ele convidasse a moça para desfrutar do conforto do seu apartamento.


    Esta sem a menor cerimônia aceitou prontamente o convite. E, como de costume, assim que terminou seu expediente convidou o diretor para tomar uma cerveja onde os funcionários da emissora iam com freqüência. Ele pensou que os planos para a noite tinham ido para o espaço porque seria pouco provável que não encontrasse com ninguém conhecido naquele boteco. Ela mostrou que isto seria perfeito porque aí sim que ninguém desconfiaria de nada. Renato percebeu que ele era amador perto das artimanhas de Júlia.


    E nas duas noites que se seguiram os dois viram o dia amanhecer entregues aos prazeres da carne com todo o tipo de volúpia e lascívia que se possa imaginar. O único lugar que respeitaram – mais ela do que ele – foi a cama de casal. Fora isto, todos os ambientes da casa eram mais que apropriados para uma noite quente de amor.


    Os funcionários da emissora perceberam que quinta para sexta feira, Júlia – mulher vaidosa – havia ido trabalhar com a mesma roupa. E pensaram o óbvio. Mas sequer imaginaram que o amante da secretária pudesse ser Renato. Ele não seria tão louco a este ponto. E isto fez com que o novo diretor se sentisse mais poderoso ainda.


    Para estranheza de todos, depois do episódio da secretária ele debruçou-se como poucos tinham visto no trabalho e começou a pensar quase que exclusivamente em fazer com que a emissora crescesse. Havia chegado um relatório do IBOPE que trazia a emissora do sexto para quarto lugar, batendo o terceiro em alguns horários. Depois de uma análise detalhada viu que para estar brigando, de fato, pela liderança precisava de dois pequenos movimentos: Tirar um comunicador de outra emissora e manter o jovem repórter policial que dava seus primeiros passos como apresentador.


    Conseguiu o primeiro. Realizaram uma festa de boas vindas jamais vista na história do rádio londrinense até então. E com a contratação deste profissional, restava agora o mais simples. Manter o colega de emissora. Notou total desdém do dono da emissora em relação ao profissional. Renato tentou de todas as formas argumentar em favor do profissional e da emissora. Tudo em vão. Não demorou muito e o repórter policial foi contratado pela emissora líder. Este foi o primeiro passo rumo á desilusão total quanto aos projetos que tinha para aquela rádio. E desta forma voltou aos bares, aos porres, e aos amores vis...


    Queria ter um novo sentido na vida. Precisava disto. Se por um lado a vida profissional não estava melhor por falta de motivação e por certo relaxamento em relação ás suas obrigações enquanto profissional a vida amorosa – nitidamente a sexual extraconjugal – estava intensa. Porém isto ainda era muito pouco para ele.


    Nem o fracasso do Plano Cruzado – ocorrido meses antes – que acontecera como ele previra – tinha sido exclusivamente eleitoreiro - fazia com que ele se interessasse por algo. Eis que, neste final de ano recebeu o convite do PCB para compor o samba enredo do bloco do partidão. Era a forma que os comunistas haviam encontrado de se mostrarem simpáticos e quebrarem os tabus –alguns ridículos como “comunista come criancinha” – visando as eleições que se avizinhavam. Isto sim foi uma certa dose de combustível para ele.


    No primeiro ensaio do bloco reencontrou Josiane. Aquela menina que na sua pré-adolescência tinha sido a grande paixão de sua vida. Aquela jovem que durante os ensaios do grupo de teatro a punha no colo e a acarinhava. Aquela menina que fora, até ali, seu namoro mais intenso e que havia terminado sem os remorsos tradicionais. E o reencontro com Josiane marcou um novo e intenso caso de amor. Rápido mas com uma intensidade poucas vezes vista.

1988

Depois de muito tempo tinha passado as festas de fim de ano com aspecto e perspectivas de felicidade. O reencontro com Joseane despertara vida nova em Renato. Ele estava crendo piamente que poderia manter a relação como em anos passados. Ela, tentava mais uma vez apostar na relação. Mas estava balançada por Gustavo, estudante de direito, mas de um temperamento difícil. Sempre julgou a relação anterior – que agora estava reatando – muito mais fácil de administrar do que a possível relação que poderia ter.



    O jovem comunista estava vivendo em absoluta sintonia com o mundo. Na África do Sul, a luta de Nelson Mandela por igualdade racial e social estava chegando ao fim. O regime de segregação que durante anos assolou aquele país agora dava espaço aos direitos iguais. Na Europa, a União Soviética agonizava. A Perestróica, idealizada por Mikhail Gorbachev começa a soprar ventos democráticos na maior nação comunista do mundo. A “repaginada” que o mundo dava ia, mais tarde, fazer com que as duas Alemanhas voltassem a ser uma só com a queda do Muro de Berlim.


    Inspirado nos acontecimentos, o carnaval de 88 foi um dos mais políticos que já se viu. As Escolas de Samba – normalmente engajadas em temas que lhe rendessem dinheiro – resolveram tornar-se politizadas e a febre de temas políticos espalhou-se pelo Brasil. Até o bloco carnavalesco onde Renato e Josiane participavam falam dos novos ares. Subitamente, uma idéia absurdamente louca tomou conta dele: por que ele não arrastava Josiane para assistir ao desfiles das campeãs no Rio de Janeiro?


Mesmo apesar de estar legalmente casado daria um jeito nisto. Precisava da concordância dela. Esta parecia a pior parte. Porém, como se o destino estivesse conspirando ao seu favor, seu amigo Robson comentou com ele esta possibilidade. Principalmente pela nova revolução que Martinho da Vila provocava na história do carnaval. Um enredo despojado de luxo onde o tema era mais importante que todo o resto. A Unidos de Vila Isabel tendo Ruça – então mulher do segundo maior poeta que este bairro produziu para o mundo – trazia um enredo do ex- sargento falando da festa das raças, a Kizomba. Foi uma literal apoteose.


    Neste clima político, ela concordou com a aventura então ousada. O problema maior era como fazer com que Lúcia não fosse. Na realidade isto não era um problema dela. E ele estava empenhando em resgatar o melhor do mundo com a jovem atriz. Tudo parecia apenas uma questão de tempo. Mas o tempo nem sempre é aliado de quem se ama...


    E, sem fazer muito esforço e com a ajuda do amigo embarcaram em três casais para o Rio. O único casal “não convencional” era Josiane e Renato. Nos demais casais o pânico de haver “barraco” caso Lúcia resolvesse ir conferir o “trabalho” dos três. Ainda assim foram. Ao chegar no hotel verificaram algo que já sinalizava para que desistissem da aventura. Não havia três apartamentos disponíveis para três casais. O máximo eram dois apartamentos triplos. Como era a única situação – física e financeira – que se apresentava toparam. Passaram a noite de sexta feira aproveitando o que o Rio tinha de melhor a oferecer. E acabaram dormindo os homens num quarto, as mulheres noutro.


    O comunista dormiu literalmente mordendo o travesseiro de raiva. Era esta a oportunidade de ter sexo real e consumado com a nova namorada e tudo parecia estar contra os dois. Mas as coisas iriam piorar...


    Na manhã seguinte todos foram á praia. Renato ficou na cama. Sabia que iria passar a madrugada em claro. Queria estar totalmente ligado em Josiane. Não demorou nada para que batessem á porta. Pensou que fosse o serviço de quarto. Não era. Era a namorada entrando, só de biquíni. Ele, na ereção matutina somada aos sonhos eróticos da noite anterior não escondeu o que estava sentindo. Ela, caprichosamente, deitou sobre ele, tirou a parte de cima e quando iam consumar o ato a amiga bateu afobadamente na porta.


    Passaram o final da manhã e boa parte da tarde na praia. Ela parecia feliz com tudo que estava acontecendo. Ele, visivelmente contrariado, fumava um cigarro atrás do outro. Pensava numa boa história – recheada de detalhes para contar para Lúcia. Em outros momentos a única coisa que lhe passava pela cabeça era pedir o divórcio. Queria fazer daqueles minutos um pacto com a eternidade mas parecia que o mundo conspirava contra ele. Naquele dia, almoçaram numa lanchonete na Praia do Flamengo. Estavam todos excitados com a possibilidade de assistir ao vivo o desfile das campeãs. Todos ali adoravam carnaval. Foram para o hotel, dormiram e acordaram pouco depois e sem perder muito tempo rumaram para o sambódromo.


    Viram as melhores escolas daquele ano e entraram em êxtase ao assistir a kizomba que Martinho da Vila tinha feito e que dera o primeiro campeonato á Vila Isabel. No dia seguinte, acordaram depois das 13:00 horas e Renato convidou a todos para almoçar no Barril 1800, restaurante no Leblon, onde era possível encontrar vários artistas. Convite feito, convite aceito prontamente. Durante o almoço, Josiane jogou o comunista contra a parede. Percebendo que ele fumava, estava alegou que era alérgica á fumaça de cigarro e que ele tinha que escolher: ou a nicotina ou ela. Ele não pensou duas vezes. Amassou o maço de Carlton – fumava dois daqueles por dia – com seis ou sete cigarros ainda e jogou longe. Daquele dia em diante, raras vezes colocou um cigarro na boca.


    Á noite pegaram o ônibus de volta para Londrina. Até ali tudo havia sido perfeito. Á exceção do sexo que até então não tinha acontecido e que, certamente não aconteceria. Mais uma vez o jovem comunista estava enganado. Mal entraram no ônibus e a namorada o levou para os últimos bancos. Ela havia escolhido aqueles lugares e ele não havia entendido o porquê. Não demorou muito e o motivo foi revelado. No momento em que a noite avançou e a madrugada deu seus primeiros sinais ela os cobriu da cintura pra baixo com um cobertor. À medida que os demais passageiros iam cedendo ao sono, ela intensificava as carícias e as preliminares. Até que na madrugada plena o amor se fez dentro daquele ônibus “testemunhado” por mais quarenta pessoas que dormiam profundamente.


    Ao chegar em Londrina uma sensação estranha tomou conta da jovem. Renato percebeu. Não era grande observador quando se tratava de sensibilidade feminina. Mas, aqueles olhos verdes misturados com aquela vermelhidão decididamente não era de uma madrugada mal dormida e muito bem servida lascivamente. Decididamente algo errado estava acontecendo ali. Não demorou muito e ele descobriu que estava certo. Ela o chamou para uma conversa e pôs termo ao relacionamento deles. Nova chaga no coração do radialista. Uma punhalada mais que doída e uma decisão mais do que tardia. Seu casamento com Lúcia tinha que acabar também. Era 25 de março de 1988 quando os olhares cúmplices dos dois se cruzaram pela última vez.


    Não havia mais dúvidas precisava de uma direção definitiva em sua vida. O problema era como tomar esta decisão. Quis o destino que ele voltasse para a Rádio Norte, antiga Clube de onde um dia havia saído para sofrer na mão da ditadura decadente mas feroz. O salário era infinitamente menor do que ganhava como diretor artístico da outra emissora. Mas haviam comprado uma nova idéia dele. Fazer no rádio AM de Londrina programas que fossem produzidos com roteiro, como nas grandes emissoras do eixo Rio-São Paulo. E, desta forma, Renato iniciava uma nova etapa em sua vida.


    A idéia da separação da esposa estava se consolidando a cada dia. Faltava, no entanto, algo que desse motivação a ele para dar o primeiro passo rumo a esta decisão. E não demorou muito e este motivo apareceu. Com olhos verdes – assim como Josiane – um pouco mais alta. Corpo de modelo. Cabelos cor de mel que escorriam por uns sete dedos abaixo do ombro. Sorriso enigmático e encantador ao mesmo. Esta era Ludmila. Novo contato comercial da emissora e que tinha como missão alavancar financeiramente os programas que ele produzia. O cruzar de olhares foi fatal. Ali, uma coisa totalmente nova e maravilhosa encontrava aqueles dois seres. Nem mesmo os boatos de que aquela jovem estava grávida abalou um milímetro do sentimento inicial que havia brotado neles.


    Se antes a idéia do divórcio estava viva nele, agora ela aparecia com mais intensidade, com mais vontade. Tinha decidido que teria aquela jovem para ele. E mais uma vez pensou nela como namorada e futura esposa. Viver de paixões e amores tinham se tornado quase que um lema em sua vida. E o álcool continuava como seu aliado. Não demorou muito para que os dois saíssem da emissora e fossem a um barzinho. Aliás, Renato tinha conta nele e lá deixava uns 30% do seu pagamento. Começaram a conversar, trocaram idéias, ele logo fez um poema para ela e o beijo se tornou inevitável. Nascia ali o amor entre eles.


    Mesmo casado, levou a vida com ela como se fosse completamente desimpedido. Afinal este era o sentimento que assolava seu peito. Algumas vezes, os dois saíam do serviço e iam para a casa dele onde faziam amor até o anoitecer. Sim, Ludmila estava grávida e ele estava disposto a assumir a paternidade do filho seu filho. Queria a jovem vendedora fosse qual fosse sua situação. E foi desta forma que num belo dia arrumou todas suas coisas e deixou sua casa, Lúcia e o passado que haviam vivido juntos. A esposa já tinha um “namorado” também. E a vida sexual deles era praticamente nula. Assim acabou o casamento deles...


    Certa ocasião em que a jovem vendedora demorava para voltar de uma visita a um cliente, ele foi jogar sinuca com Cláudio, seu melhor amigo naquela emissora e que apresentava um programa sertanejo. O colega também vivia um lindo caso de amor. Como os dois estavam apaixonados e decididos a darem uma virada em suas vidas decidiram naquela mesa de sinuca que iriam fazer um novo vestibular. Ele tentaria uma vaga em Letras, o amigo em Psicologia. Nascia ali o professor Renato.


    Não demorou muito para que ela aparecesse. Olhar de tristeza nos olhos. Nitidamente contrariada disse que precisava falar com o namorado. A primeira coisa que lhe ocorreu era que ela ia pedir para que ele diminuísse o consumo de álcool. Por ela, abandonaria a bebida da mesma forma que fez com o cigarro. Mas não era. Seu grande amor simplesmente pôs um ponto final na relação. Sem motivo nenhum. Até hoje se comenta que a diretora da emissora teria feito chantagem e ameaçar despedi-la. Outros garantem que ela teria aceitado dinheiro do pai do comunista para deixar a vida dele.


    E foi assim que no dia 12 de maio de 1988 a relação entre os dois terminou. Ou foi temporariamente suspensa...


    Na madrugada de 13 de maio ele teve um sonho estranho mas que remetia para aquela fatídica tarde de 2005. Justamente no dia em que se celebrava os cem anos da abolição da escravatura, ele teve uma visão muito parecida com a que ocorre, nesta mesma madrugada, no livro “Clara dos Anjos”, de Lima Barreto. Andando por uma rua estreita vê um bando de menores vindo em sua direção. Ele – no sonho – está alcoolizado. Derrubam-no chão e começam a chutá-lo até que do nada tudo fica verde e um bando de fadas, duendes, gnomos e principalmente bruxas surgem e assustam os assaltantes. O mais impressionante é que a imagem da bruxinha verde ele tinha tido naquela tortura psicológica que havia passado.


    Nesta mesma madrugada, na cidade de Três Pontas – terra natal de Milton Nascimento – nascia Cristina. Esta jovem, 23 anos mais nova que Renato ainda viria a se tornar num amor inesquecível de sua vida. Com ela aprenderia coisas que muitas pessoas ainda não entenderam e certamente jamais entenderão.


    Tomado por aquele sonho e frustrado com a separação entre ele e Ludmila resolveu diminuir a bebida e concentrar-se mais no serviço e principalmente na campanha política que aconteceria naquele ano. Duas coisas ainda tornavam sua vida insuportável. Beth, a diretora da rádio vivia de fofocas e de intrigas com a maioria dos funcionários. Mais de um jurava que no dia que saísse daquela emissora ia dar um tapa na cara dela. Renato tentava se conter mas via que ficava mais impossível. Outra coisa que o irritava era o fato de ter que falar bem do candidato do PDS – forçando todas suas convicções – que tinha estreito laço de amizade com os donos da emissora. Nesta época também travou contato com um jovem acadêmico de jornalismo, militante do PT que mais tarde se tornaria fenômeno de comunicação e prefeito de Londrina, pelo PDT.



    Contando com a desconfiança geral, ele pos-se a estudar para o vestibular. Percebia que sonhos – no mundo radiofônico – são utopias recarregadas dia a dia. Precisava se desvencilhar daquele mundo, mas isto era impossível. Talvez vivendo uma outra realidade – e neste ponto o magistério parecia ser a carreira mais plausível – poderia lidar melhor consigo e com suas emoções. Politicamente continuava o mesmo. Militante de esquerda, acreditando que a mudança começava pelas bases. Mais: que os políticos de esquerda eram honrados em sua totalidade. Descobriria, com o tempo, que as exceções se cabem até para aqueles que jamais as admitiram.


    Afastado fisicamente de Lúcia, procurava manter assim a relação com ela. Para sua estranheza tinham se tornado mais amigos agora do que quando eram casados. Certo dia, chegou na nova casa da ex- mulher e a viu com um copo de caipirinha na mão. Julgando-se ainda seu marido, pensou que a bebida fosse pra ele e a sorveu como se fosse água. Não demorou dez minutos para que um homem adentrasse a casa e dando um “selinho” nela perguntasse de sua bebida. Renato entendeu o que estava acontecendo e, mantendo uma certa classe, retirou-se pedindo desculpas pelo inconveniente.


    Mal começou a sair da casa e a ex-mulher foi ao seu encontro tentando explicar o que estava acontecendo. Ele, de forma madura, disse que não precisava explicar nada e que ela tinha o direito de buscar a felicidade. Ele é que estava envergonhado por ter sido abrupto. Alegou também que ela poderia ter avisado a ele da nova relação. E foi embora. Só se falariam pessoalmente – depois deste episódio – mais três vezes. Se havia um desconforto por parte dela, por ele tudo estava mais claro e melhor definido.


    O problema era que Lúcia não admitia derrotas. Principalmente na vida amorosa. Certa feita chegou a criar um noivado com um ex-namorado. E a partir deste dia passou a ligar constantemente a ele para que os dois acertassem os detalhes finais do casamento. Renato titubeou muito em encontrar com ela. Até que um dia, cedendo ao apelo da ex – e em nome dos bons momentos que tinham vivido – resolveu encontrar com ela. Era 4 de outubro de 1988.


    No dia seguinte, conforme o combinado, ele foi ao encontro dela. Almoçaram em um restaurante especializado em comida chinesa e que havia sido sempre o lugar onde ambos selavam as pazes quando a relação estava desgastada. E muitas vezes, isto funcionou.


    A conversa seguia animada até que a ex-esposa propôs que os dois deixassem aquele restaurante e seguissem para um motel. Disse mais, disse que eles poderiam passar a tarde toda e até boa parte da noite lá. E ainda fez a proposta que eles poderiam realizar as fantasias mais loucas e até então não realizadas entre os dois. O jovem comunista esta prestes a ceder quando a melhor amiga dela entrou no restaurante e, sem cerimônias, sentou-se junto do casal. Era tudo o que ele precisava e o que ela menos contava naquele momento. A fisionomia de Lúcia transformou-se radicalmente. Ela que antes sorria e via a possibilidade de reatar cada vez mais viva, agora percebia que a relação entre os dois estava mais do que desgastada e que não havia como evitar a separação.


    Após a amiga almoçar e enquanto os três tomavam cerveja, a ex-esposa pediu para ir embora. A irritação era agora indisfarçável. Renato não entendia o porquê daquilo tudo mas não escondia uma ponta de orgulho por ter tirado a ex-mulher do sério. Levaram-na para casa e ele e a melhor amiga passaram a tarde tomando cervejas na beira do Lago Igapó, numa lanchonete que nem existe mais. E foi dali, naquela linda paisagem que os dois viram a figura de Ulisses Guimarães declarar promulgada a nova Constituição Brasileira. Era 5/10/88. Nascia ali a chamada “Constituição Cidadã”.


    Após esta passagem, a ex-esposa desapareceu. Pouco tinha notícias dela. Afinal ele estava focado no trabalho e era isto que, de fato, interessava a ele. Neste meio tempo começou a freqüentar terreiros de umbanda e chegou a desenvolver a mediunidade. Depois de perambular por vários centros espíritas, afastou-se. Achava melhor não seguir religião nenhuma. Mal se afastou e descobriu que a ex-mulher estava grávida. Descobrira a jogada dela. Passariam a tarde no motel e ele acabaria assumindo a paternidade que não era dele mas que ela juraria ser. Respirou, mais uma vez, aliviado e agradeceu aos deuses por terem o livrado de mais aquela.


    Soube, tempos depois que havia nascido uma menina. Seu nome, Isabela. Apesar de nada mexer com ele quanto havia mexido o nascimento daquela mineira que –ainda – sequer imaginava a existência dela achou o nome suave, melódico, de gosto bom. E pela primeira vez aquele nome cravou-se em seu coração e em sua alma.


    Quando imaginou que aquele ano havia sido pródigo no que se referia a amor entrou em mais uma situação tragicômica de sua vida. Envolvido com a umbanda, foi convidado para participar da festa de Iemanjá no último dia de 1988 em Praia de Leste. Seu pai tinha uma casa lá. Seus “amigos” do meio do samba pediram a ele que alugasse a casa para que alguns amigos ficassem lá enquanto eles se preparavam para as festas de fim de ano. Renato pediu a casa emprestada e alugou aos amigos. Esqueceu-se de um pequeno detalhe. Perguntar qual era o número de amigos que iriam, porque a casa tinha espaço apenas para 13 pessoas. Saíram na madrugada de 29 de dezembro em direção ao litoral paranaense. Pararam em Tamarana, na época distrito de Londrina e compraram muita bebida na padaria de um primo distante do comunista. Estavam numa Brasília. O jovem pensava aliviado que a casa seria. Pararam ainda em Imbaú. Ali aconteceram duas coisas decisivas na vida dele: primeiro os amigos vinham, nada mais nada menos que em um ônibus fretado. E daquele ônibus desceu Márcia, sorrindo. Ali ele sentiu que terminaria 1988 vivendo um novo amor.

1989(8)

O ano começara com grandes prenúncios para Renato. Estava vivendo um novo amor que havia iniciado nas últimas horas de 1988. No primeiro domingo daquele ano faria seu novo vestibular. Não que isto o preocupasse. Como a conversa e a aposta havia surgido em um bar, ele não tinha o menor pudor de confessar que faria o melhor dele para passar no vestibular do que pela carreira que o curso de Letras pudesse lhe oferecer. Não conseguia se vir em uma sala de aula, diante de vários alunos ávidos – e outros nem tanto – de conhecimento. Mais que isto, atribuía a escolha do curso a um simples acaso, nada mais.


    Verdade que o novo amor começava um pouco mais complexo e muito mais pé no chão que todos os anteriores. Talvez fosse disso que ele precisava. Talvez não. Pessoas movidas à paixão, a idealismo trazem – invariavelmente – esta dicotomia como marca da sua personalidade. Não que seja – necessariamente – um desvio de caráter. Mas o novo, o desafiador, o inesperado e principalmente o ilógico e o irracional criam em pessoas assim um fascínio que só quem vive é capaz de entender.


    Mais que o vestibular, o jovem comunista tinha agora um novo problema pela frente. Como explicar aos seus pais que haviam ficado mais de 40 pessoas numa casa onde cabiam 13? Como explicar que até barraca de camping havia sido montada na garagem da casa? E o pior de tudo: como explicar o estrago e respectivo conserto que havia acontecido na bomba d’água? Realmente aquele era um sério problema que Renato teria pela frente. Ainda assim, preferiu o silêncio. Caso a verdade viesse à tona, aí daria as explicações necessárias. Se convincentes era outro detalhe que ele pensaria depois.


    No dia 12 de Janeiro daquele ano uma coisa estranha, que só tinha sentido no maio anterior aconteceu com ele. Fazia poucos dias que havia terminado o vestibular. O namoro com Márcia ia de vento em popa mas subitamente uma sensação de aperto, dor e alívio – nesta ordem – foi sentida em seu coração como ele só tinha sentido uma vez. A dor foi tão forte que precisou sentar-se numa cadeira de uma lanchonete próxima para descansar. Seus amigos ficaram preocupados, temendo pela sua saúde.


    Subitamente sua fisionomia foi melhorando. Um ar de felicidade tomou conta do seu rosto. Num lampejo viu uma borboleta sentar sobre seus ombros e sentir um alívio como nunca tinha sentido antes. Lembrou da imagem que tinha tido no suplício da tortura psicológica em 1985. Temeu por sua sorte. Mas estava tão feliz que pediu uma cerveja para comemorar. Exatamente o que não se sabia. Talvez a vida. E sem saber era exatamente isto que comemoravam. A quilômetros dali, na cidade de Goiorê, no interior do Paraná alguém vinha ao mundo para trazer uma alegria poucas vezes sentidas no coração de Renato. Traçar uma história que por si só daria um novo romance. Imprimir nele o sentimento de eternidade que não havia sentido com tanta força.


    Era o ano do centenário da República. A democracia estava, de fato, voltando ao país. Naquele ano, depois de décadas o Brasil voltaria a eleger o seu presidente de forma direta. Um verdadeiro frenesi tomava conta do país a respeito de nomes que seriam candidatos e de nomes que pudessem conduzir o Brasil ao progresso tão sonhado, começando pelo fim da censura e da inflação absurda que assolava a todos naquela época. Algo que fosse definitivo e que Sarney só havia dado o “gostinho” no seu malfado Plano Cruzado.


    Antes porém que acontecessem as eleições, Renato passou novamente no vestibular. Desta vez em oitavo lugar. Riu muito, pois não havia estudado literalmente nada para aquele concurso e ainda tinha sido aprovado entre os dez primeiros. E desta vez estaria mais próximo de alguma coisa que fazia com prazer. Escrever, estudar os mecanismos e as tendências da Língua e das Literaturas Brasileira e Portuguesa. Quem sabe não estaria aí a verdadeira carreira que ele tanto sonhava? Era mais uma aposta que o jovem comunista fazia a si mesmo como forma de se empolgar na aventura que agora iniciava e que tinha nascido numa mesa de sinuca de um bar.

    Começou a cursar Letras e não demorou muito para se empolgar com o curso. De uma hora para outra via o quanto havia demorado para encontrar algo que aliasse conhecimento a prazer. E sem grandes pretensões, entendera para si mesmo a causa da enorme evasão escolar nas Universidades. Quando não se faz esta ponte, ou se desiste do curso ou se coloca mais um profissional frustrado no mercado.

    Como já havia passado pelo curso de Direito, sabia que era fundamental manter contato com as escolas, desde o primeiro ano do curso, para poder sair da Universidade empregado. Aquele ano também seria ano de eleição para Reitor na UEL. E não demorou nada para que Renato se empolgasse e se encaixasse na candidatura de Nitis Jacon, sua ex-diretora dos tempos de teatro e por quem sempre nutriu grande carinho e respeito. Além disto, construiu na Universidade uma relação estreita com um grupo de amigos – notadamente com João Batista – que futuramente faria com que um ajudasse ao outro profissionalmente falando.

    Não demorou muito e foi chamado pelo Colégio São Paulo para trabalhar. Na realidade começou como professor naquela escola por engano. Entregou seu currículo lá em um dia e no dia seguinte foi chamado. Ao chegar foi efusivamente recebido como se o esperassem há décadas. Percebeu que não era exatamente ele o professor que esperavam, mas como queria demais aquela primeira experiência calou-se e esperou que sua contratação fosse efetivada. E assim no dia 15 de agosto daquele ano, iniciava sua carreira de professor entrando pela primeira vez numa sala de aula.

    Paralelamente á carreira de professor, continuava sua militância política. Não militava mais no PCB. Agora estava no PSDB, de onde foi fundador em Londrina, tendo sua ficha de filiação abonada por José Richa e Mário Covas, este último candidato á presidência naquele ano. Na Universidade também militava politicamente para ver sua amiga tornar-se a primeira reitora daquela instituição. Sua vida amorosa caminhava a passos largos para que no final daquele ano ele casasse pela segunda vez. Suas músicas, continuavam participando e ocasionalmente ganhando um prêmio ou outro em festivais. Enfim, sua vida cultural, política, profissional e amorosa estavam se encaixando perfeitamente. O que mais poderia se exigir da vida?


    E foi assim que Renato entrou de cabeça sua militância naquela campanha presidencial em favor do então Senador pelo Estado de São Paulo.


    Em pouco tempo descobriu que tinha mais jeito para o magistério do que tinha imaginado até então. Não demorou muito para se tornar um dos professores mais populares daquela escola. Na realidade, havia entrado para substituir um professor que era mais pré-adolescente que os próprios alunos. E os planos da direção do Colégio São Paulo era mantê-lo até o final daquele ano letivo. Principalmente porque ele era apenas um acadêmico em início de curso. No entanto, sua popularidade fez com que a direção refizesse completamente seus planos.


    A sua característica peculiar de assumir publicamente suas preferências políticas, ao contrário do que se pudesse imaginar, fez com que seus superiores prestassem mais atenção á sua postura. O jovem professor era, de fato, a prova viva que o Brasil agora vivia uma nova época. Não temia dizer que tinha optado por um candidato de esquerda, numa época em que todo tipo de restrição era feita em quem optasse em ser de esquerda abertamente.


    Além disto, presenciava na Universidade algo que o deprimia muito. Surgia naquele ano a figura da “acompanhante”. Profissional do sexo, recrutadas em Universidades e Faculdades para “atender” empresários “graúdos” da cidade e região. Como ainda não eram todos que dispunham de ter um celular – além de caro era uma coisa altamente “vistosa” – as ligações eram feitas para o Orelhão do Centro onde ele estudava. No começo achou engraçado o fato do aparelho tocar nos intervalos e várias alunas correrem em direção a ele. Depois começou a que ponto chegava a miséria humana. E isto começou a se tornar uma pessoa descrente em relação ao ser humano. Por suas convicções, cria que o ser humano precisava apenas do básico e de um amor bonito e pleno para ser feliz. E aquela ambição de pessoas que não precisavam se submeter aquela o fez focar ainda mais nos seus alunos, iludido que ele poderia modificar a realidade a partir de suas aulas.


    Não demorou muito para que marcasse seu casamento com Márcia para o dia 15 de dezembro daquele ano. Apesar de estar vivendo com intensidade o clima da eleição presidencial dentro da própria universidade e nos seus contatos com seus amigos, precisava aquietar o coração. Acreditava que o namoro nascido na Festa de Iemanjá seria o tal do amor eterno. Ainda que não sentisse isto com a vibração que já havia sentido duas vezes anteriormente sem que conseguisse dar uma boa explicação a si mesmo, pensava aquela ser sua relação afetiva duradoura.


    No entanto seu foco estava no deslumbre que o magistério estava se apresentando. Mal entrou no Colégio São Paulo e deparou com seu primeiro conflito de ordem ideológica. Os professores mais antigos resolveram parar suas atividades porque alegavam que não recebiam adequadamente. Em outras ocasiões, teria se solidarizado com o movimento no primeiro momento. Mas, naquela ocasião, preferiu refletir consigo mesmo. Renato que sempre fora uma pessoa impulsiva, colérica, passional agira de uma forma racional poucas vezes vista. E, contrariando suas mais íntimas convicções preferiu apegar-se ao emprego do que aderir á greve.


    Sua atitude não poderia ter sido melhor. No dia seguinte os jornais da cidade estamparam um grande anúncio onde se lia escrito: “COLÉGIO SÃO PAULO CONTRATA PROFESSORES”. Desnecessário dizer que o anúncio acabou com a greve sem que houvesse, imediatamente, punições ou demissões aos professores que aderiram ao movimento. No ano seguinte, porém, alguns dos líderes do movimento foram “promovidos” a dar aula exclusivamente nas unidades de Bandeirantes e Cornélio Procópio e não na sede, em Londrina. Obviamente sentiram-se desprestigiados e, um a um, alegando os motivos mais diferentes possíveis foram se desligando da instituição. O jovem contratado, quase um ex-comunista a esta altura, permaneceu na sede e ainda teve sua carga horária aumentada, assumindo também algumas aulas nos cursos técnicos e supletivo que o Colégio mantinha na época.


    E assim o ano chegava ao fim. No dia 15 de novembro daquele ano o Brasil via Fernando Collor de Melo ex-governador de Alagoas, herdeiro político de usineiros daquele estado e representante da direita pelo desconhecido PRN, chegar ao segundo turno das eleições com o sindicalista e fundador do PT – que representava a aglutinação das esquerdas no Brasil, Luis Inácio Lula da Silva.


    Renato vibrou consigo mesmo. Aquele ano tinha sido pródigo para ele em todos os campos. No emocional havia conhecido Márcia e estava apostando todas suas fichas naquele relacionamento por mais que sua intuição- e uma certa premonição- que tinha desde o malfadado dia nos porões da censura indicassem o contrário. No profissional havia iniciado uma nova profissão: a de professor e sentiu o magistério pulsar em suas veias com uma determinação poucas vezes vistas. E no político por ver que o povo voltava a escolher um presidente e que o Brasil tinha a chance de ser um país de esquerda, ainda que os acontecimentos políticos daquela época mostrassem que esta era a direção contrária que o mundo poderia seguir.


    Percebia que tudo o que havia lutado até então e mesmo as poucas horas em que passou por momentos de pânico na Polícia Federal agora valeria a pena estar vivo para ver. Ver os exilados voltando. Conviver com o carisma político de Leonel Brizola – até então um verdadeiro mito político para ele - , conhecer pessoalmente Mário Covas – um dos paradigmas da ética e da integridade política do Brasil, e ver finalmente o PCB sair da clandestinidade e voltar a atuar como um partido político como os outros e não com o folclore que se criou em torno dos comunistas, valeria a pena ver e viver.


    Se havia mortos por chorar e presenças a se lamentar – como José Sarney, Paulo Maluf, Ronaldo Caiado e o próprio Fernando Collor, entre outros – havia se restaurado o mínimo de dignidade política ao povo e á democracia brasileiros. E foi com este espírito, vestindo uma camiseta com a bandeira do Brasil escrito – MÁRIO COVAS – que o agora professor Renato foi para o Colégio Hugo Simas, votar para presidente do Brasil. Após 25 anos de uma ditadura feroz, aquele 15 de Novembro foi mais que especial para todos os brasileiros de forma geral. A dignidade, aos poucos, estava sendo restaurada neste país.


    Os 18 dias que separaram o primeiro do segundo turno da primeira eleição presidencial no Brasil depois de mais de duas décadas foram, para Renato, menos importantes do que toda a campanha que havia colocado Collor e Lula como antagonistas naquele pleito. Não que ele tivesse perdido o interesse pela política. Ao contrário, cada vez mais se interessava, e justamente nesta época começou a fazer planos para que ele também – um dia – fosse candidato a , pelo menos, vereador. Herança política na família tinha de sobra para almejar isto.


    Mas o que desviou sua atenção para aquele período decisivo foi o fato de o final do ano letivo se aproximar e com ele, seu casamento. Naquela época ele já tinha um apartamento dele. Pequeno é verdade. Pouco maior que uma quitinete mas era próprio. Quantos podem se dar “ao luxo” de iniciar uma vida a dois num imóvel próprio? Infelizmente esta não é uma realidade palpável á maioria dos brasileiros.


    Empolgado com a entrega do apartamento dias antes do seu casamento, levou Márcia para conhecer o imóvel por dentro. Até então ela só havia conhecido por fora e tinha se encantado. Além do bom gosto na fachada do prédio, este era bem localizado e estava praticamente no centro de Londrina. De onde iriam morar até o Colégio São Paulo, Renato não demoraria mais que dez minutos para estar na escola. Enfim, tudo estava caminhando para uma vida harmoniosa e repleta de felicidade.


    Porém ao chegar ao apartamento, a fisionomia da noiva transformou-se. Da alegria pela fachada e pela beleza de salão de festas e recepção, a tristeza tomou conta da jovem completamente ao ver o tamanho da nova residência. Ironicamente perguntou a ele onde estava o resto do imóvel. Era como se uma nova punhalada cravasse seu peito. Sorriu, querendo ali, naquele momento, cancelar casamento e tudo mais. Mas suas esperanças de ter uma vida sossegada e plena eram maiores que aquilo. Mesmo com um golpe inicial e tão profundo como este.


    Os dias que se seguiram foram tumultuados. A eleição de Collor era certa, o ano letivo chegava ao final, o casamento se aproximava. Renato estava cada vez mais envolvido com estas três coisas e não necessariamente nesta ordem. O que ele não havia entendido ainda era que o mundo é uma desordem sem limites. E é esta desordem do mundo que o torna fascinante, que acaba com a monotonia, que elimina o tédio, que torna o improvável, possível e o impossível, provável.


    No magistério aprendera que verdadeiro mestre é quem aprende com os alunos. Quem partilha, ensina e aprende ao mesmo tempo. Conhecimento é para ser dividido, não imposto. Aprendeu também que na Rede Particular de ensino, assim como na maior parte das coisas da vida, só os talentosos, audaciosos e perspicazes têm espaço. Na política aprendera que tudo pode acontecer. Lula massacrou Collor no último debate antes do segundo turno. Porém o ex-governador de Alagoas usou uma filha ilegítima de Lula e o massacrou nas urnas.

   
    A lição de Collor deveria servir para a vida emocional de Renato para sempre mas ele não se ateve a isto. No amor não existe ética e o pseudomoralismo e a hipocrisia social sempre acabam vencendo e convencendo a maioria das pessoas. Ainda que alguma coisa na sua alma pedisse que tivesse mais calma, viu Collor de Mello ser eleito e ele casar num espaço inferior a dez dias...